Sunday, March 25, 2007

Sem limites para criar

(07/12/2006 - 12:38)
Correio Braziliense

Talento de artistas anônimos em tratamento no Sarah do Lago Norte encanta visitantes em exposição montada pelo hospital
André Bezerra Da Equipe do Correio

Não há limites para a arte. Prova disso é a exposição Obstáculo Zero, aberta ontem na unidade do Lago Norte do Hospital Sarah Kubitschek. Reunindo quadros feitos por pacientes em tratamento de reabilitação motora ou neurológica, a mostra traz uma explosão de cores e formas que encheu de vida a galeria montada no centro de estudos do hospital. A qualidade dos traços revela artistas talentosos e comprova que não existem impedimentos quando se quer criar. Os trabalhos são resultados de oficinas de arte aliadas ao processo terapêutico. Além de propiciar melhoras e benefícios físicos aos pacientes, a criação artística traz uma leveza indescritível. “Só a arte é capaz de expressar como somos grandes e ilimitados por dentro”, resume uma das responsáveis pela exposição, a arte-educadora Cláudia Simas.

Na exposição estão quadros de diversos estilos e temas feitos nos últimos anos por pacientes de várias idades e com diferentes quadros clínicos. Foram selecionados para essa mostra 40 trabalhos, de nove artistas que passaram por tratamento no hospital. Entre retratos, paisagens, abstrações e até uma tira em quadrinhos, percebem-se o esforço e o talento dessas pessoas. “A arte faz parte do processo terapêutico no hospital. Levamos isso a todas as enfermarias. É uma forma de possibilitar novos caminhos para os pacientes”, acredita Cláudia Simas. Ela trabalha com arte-educação no Sarah Kubitschek há cerca de sete anos e, desde então, vem desenvolvendo técnicas especiais para possibilitar a produção artística com portadores de necessidades especiais.

O estudante Felipe Fernandes, 16 anos, é um dos destaques da mostra. Com o apoio do computador, ele produziu quatro telas bem bonitas e de um estilo inconfundível. Seu traço é forte e as cores, bem vivas. Na oficina de arte digital, além de técnicas tradicionais como pintura a óleo, acrílico, lápis e grafite, ele aprendeu a usar a tecnologia como instrumento artístico. São utilizados computadores especiais e um moderno software, o Art Rage 2, no qual os artistas desenham numa tela sensível que leva as formas para a tela do computador. Depois, eles podem mexer nas cores, texturas e efeitos desejados. “Aprendi uma nova forma de desenhar. No computador, dá para criar cores bem vivas e interessantes. Gostei muito do resultado”, afirma Felipe, que parou de andar aos 11 anos, devido a uma distrofia muscular.

Auto-estima A mãe de Felipe, Elisete Fernandes, ficou emocionada ao ver os quadros do filho. “Esse trabalho é muito importante para a auto-estima dos pacientes e também para mostrar que eles podem criar e fazer algo bonito como qualquer pessoa”, acredita. Pacientes de outros estados atendidos no Sarah que também participaram das oficinas estavam ontem na abertura e se emocionaram ao ver o resultado final de seu esforço. “Ficou muito bonito ampliado e pendurado na parede. A gente estava acostumado a ver só no computador”, comentou Sidney Eleutério, 52 anos, que há um ano vem de São Paulo para avaliar sua saúde. O artista, formado em desenho industrial, criou telas com retratos de pessoas cujas peles têm texturas listradas, como um corte de madeira.

Dois interessantes retratos de cavalos feitos por Juliana Carvalho, 25 anos, também chamaram a atenção. Ela está em tratamento há alguns anos, desde que uma infecção lhe causou uma lesão na coluna. “As aulas do Sarah me fizeram reviver minha paixão pela arte, que estava adormecida há algum tempo”, revelou a jovem, que é filha de uma artista plástica e um arquiteto e mora em Porto Alegre.

Eliot Rosário, 56 anos, se revelou um grande pintor. Ele vem pintando constantemente nos últimos seis anos, e suas telas são de uma beleza surpreendente. “Esses trabalhos são muito bons, não porque mostram que os pacientes em reabilitação podem pintar, mas porque foram feitos por verdadeiros artistas. Realmente não há limites para a criação artística”, elogiou a especialista em neurociências Lúcia Willadino Braga, que também é diretora-executiva do hospital. Desde os anos 70, o Sarah trabalha com a arte como ferramenta terapêutica. “Eu já estive em museus de arte do mundo inteiro e acho que o que vi aqui hoje é tão bonito e importante quanto grandes exposições”, disse o médico Aloysio Campos da Paz, diretor do Sarah Kubitschek.

Homenagem Na abertura do evento, entre professores, artistas plásticos, pacientes das enfermarias do Sarah e visitantes, um convidado especial: Athos Bulcão, 88 anos. O artista, responsável por adornar dezenas de prédios públicos e monumentos de Brasília, também é paciente do hospital, onde trata do mal de Parkinson. Ele foi homenageado por um dos artistas que participam da exposição, Renan Prestes, que produziu um belo retrato de Athos.

“Eles se conheceram no próprio hospital e Renan ficou muito impressionado de vê-lo de perto. E resolveu homenageá-lo”, conta a professora Cláudia. Ao ver o seu retrato, Bulcão se emocionou. “Me identifiquei com a imagem. Ficou muito bom”, disse a uma de suas enfermeiras.

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